“Falar de bossa nova? Vai levar a noite toda” – Diana Krall

April 18th, 2009 Posted in Bossa Nova, Diana Krall, Musica


Com o cd The look of love, lançado em 2001, a cantora e pianista canadense Diana Krall vendeu 1,6 milhão de cópias só nos Estados Unidos. Isso fez dela o nome de maior sucesso do jazz tradicional contemporâneo. Aquele trabalho, com arranjos bossa-novistas para uma penca de clássicos da música americana, foi inspirado por Amoroso, o álbum que João Gilberto gravou em 1970. Três anos mais tarde, ela decidiu experimentar algo novo em sua carreira. Seduzida pelo romance com o músico pop inglês Elvis Costello, com quem se casou, Krall fez um álbum somente de músicas pop, a maioria delas escrita em parceria com Costello. Os fãs e a crítica torceram o nariz, e as vendas do cd The girl in the other room ficaram aquém dos dias de glória da artista. Diana volta a fazer as pazes com o sucesso lançando agora o CD Quiet nights (Verve/Universal), espécie de sequência de The look of love. João Gilberto continua a influenciá-la, e os arranjos foram novamente escritos pelo alemão Claus Ogerman, que trabalhou com Tom Jobim e João Gilberto. Quiet nights, que é o título da versão americana da canção “Corcovado”, de Jobim, é luxo só. A voz de Diana está mais nítida, tranquila e aveludada.

QUEM É
A mais famosa cantora de jazz tradicional contemporâneo do mundo tem mais de dez CDs gravados e dois prêmios Grammy. Ela produz atualmente o novo CD de Barbra Streisand, que tem influências da música brasileira. No dia 26 de maio, chegará às lojas americanas o DVD Live in Rio, gravado durante uma apresentação da cantora na cidade em 2007

COMO VIVE
Tem 44 anos, é casada com Elvis Costello. O casal tem dois filhos, os gêmeos Frank e Dexter, de 2 anos. A família divide o tempo morando em Vancouver e Nova York

A seleção parece saída de um filme noir esfumaçado e inclui canções que vão de clássicos de Johnny Mercer e Lorenz Hart a baladas pop de Burt Bacharach e da dupla Marcos e Paulo Sergio Valle. Um dos bônus é uma revelação: a releitura de um clássico da fossa moderna, a canção “How can you mend a broken heart”, dos Bee Gees. De sua casa em Vancouver (ela também tem um apartamento em Nova York), Diana conversou com ÉPOCA.

ÉPOCA – Por que um CD de bossa nova?
Diana Krall – Estive no Brasil em novembro de 2007 e meus shows no Rio de Janeiro e em São Paulo foram momentos inesquecíveis para mim. O público cantava comigo. Fiquei realmente emocionada. Quando visitei o Jardim Botânico, no Rio, vi que aquela imagem estereotipada que temos do Brasil, com suas palmeiras e seus pássaros, existe (risos)! Pude visualizar e entender a razão de muitas canções de Tom Jobim. Era final da tarde, estava meio enevoado, e aquela sensação romântica e misteriosa povoava o ar. Uma loucura. Parecia que estava chegando a um lugar saído de O senhor dos anéis (risos)! Durante aquele período, estava ouvindo os CDs de João Gilberto. Foi por isso que resolvi cantar “Este seu olhar”, em português. Quando fui gravar de novo com Claus Ogerman, tudo se encaixou. Os arranjos dele fazem qualquer música ter uma batida diferente, mais emocionada e mais perigosa.

ÉPOCA – Os brasileiros tendem a ver a bossa nova como uma estilização do jazz. Você acha que ela é mais americana que brasileira?
Diana – Não faço parte da cultura brasileira para responder a isso com maior densidade. Mas, qualquer que seja a tese, o resultado é que você tem Frank Sinatra trabalhando com Jobim; Stan Getz trabalhando com João Gilberto; e você tem Astrud Gilberto cantando música americana. Está tudo interligado. Quando era adolescente, ouvia os discos do Sergio Mendes. Não do Sergio da fase Brasil 66, mas a do pianista de trio. E notava ali influência do jazz e até dos Beatles. Hoje você escuta o Black Eyed Peas cantando com Sergio Mendes e vê que houve uma continuidade, a influência se expandiu.

ÉPOCA – Apesar do culto no exterior, há uma predisposição, em especial na publicidade, em tachar a bossa como música de elevador.
Diana – Mas eu costumo ouvir essa baboseira o tempo todo. Houve jornalista que já escreveu que meus CDs são ótimos para ouvir no elevador (risos). Isso é um problema de ouvido, de as pessoas não perceberem quanto os arranjos da bossa nova são sofisticados. A maioria das pessoas vê bossa nova como ela é: moderna, sexy e chique.

ÉPOCA – Claus Ogerman trabalhou com as feras da BN nos anos 60. Ele compartilhou histórias daquele tempo com você?
Diana – Sim! Mas para contar isso tenho de abrir uma garrafa de vinho e… ih, a gente vai ter de conversar a noite toda. Claus tem inúmeras histórias sobre Jobim, Sinatra e João Gilberto. Eu também tenho a minha com o João.

Veja o video com o clipe Diana Krall – Quiet Nights



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